Nos últimos anos, o Brasil tem enfrentado uma escalada dos preços dos alimentos, resultado de uma combinação de fatores globais e internos. Entre os principais aspectos que contribuem para essa alta, destacam-se a emergência climática e a condução da política econômica nacional. Esses elementos não apenas influenciam a produção agrícola e a oferta de produtos no mercado, mas também afetam diretamente o poder de compra da população.
Um dos fatores mais relevantes para a inflação dos alimentos é a emergência climática, que afeta a produção agrícola em diversos países. Eventos extremos, como enchentes, secas prolongadas e chuvas torrenciais, comprometem a oferta de alimentos, encarecendo seus preços não apenas no Brasil, mas no mundo inteiro. Vivemos em um cenário internacionalizado e globalizado, o que significa que qualquer oscilação na produção agrícola global tem impactos diretos nos preços internos. A redução da oferta de determinados produtos em um país pode elevar os preços em mercados internacionais, afetando consumidores em todas as regiões. Especialistas alertam que esses eventos climáticos adversos tendem a se tornar cada vez mais frequentes, tornando a previsão de preços mais incerta e dificultando o planejamento tanto para o setor produtivo quanto para os consumidores.
Além da questão climática, o Brasil enfrenta desafios internos que influenciam a inflação dos alimentos. No cenário econômico atual, há um embate dentro do próprio governo entre duas visões distintas. A ala econômica defende maior controle fiscal, corte de gastos e políticas voltadas à estabilidade macroeconômica, enquanto a ala expansionista acredita que o governo deve ampliar investimentos e aumentar gastos públicos como forma de estimular a economia. Esse impasse tem levado a medidas contraditórias, alternando políticas de austeridade com ações expansionistas. O efeito desse cenário tem sido o aumento da inflação e o uso recorrente da elevação da taxa de juros como mecanismo de contenção. Esse ciclo impacta diretamente o custo de vida da população, e os alimentos não são exceção, tornando o cenário ainda mais desafiador.
Diante desse contexto, o governo anunciou recentemente a redução da alíquota de importação para diversos produtos, como carne, café, milho e massas, com o objetivo de conter a inflação alimentar. No entanto, a eficácia dessa medida ainda é um tema de debate. Essa estratégia deve ser analisada sob duas perspectivas. A primeira é que, ao menos, não foram adotadas medidas extremas, como controle de preços ou intervenção direta no mercado, que já se mostraram ineficazes no passado. Medidas como congelamento de preços, amplamente testadas em outros momentos da história econômica do país, nunca trouxeram resultados sustentáveis.
Por outro lado, a redução das alíquotas de importação tem um impacto limitado na inflação dos alimentos por algumas razões. Primeiramente, trata-se de uma medida de médio e longo prazo. Produtos importados precisam ser adquiridos, transportados, desembaraçados na alfândega e distribuídos até chegarem ao consumidor final, o que leva tempo. Além disso, há uma limitação estrutural: a escassez global de alguns produtos. O café, por exemplo, enfrenta uma oferta reduzida em vários países produtores, o que impacta seu preço internacional. O Brasil, embora seja um dos maiores produtores de café do mundo, também sofre com a valorização do dólar, que encarece os custos de exportação e reduz a oferta para o mercado interno. Como o café é uma commodity, seu preço segue padrões internacionais, tornando difícil uma redução expressiva nos preços com base apenas na retirada de barreiras alfandegárias.
Dessa forma, ainda que a eliminação dessas barreiras possa facilitar a entrada de produtos estrangeiros, dificilmente haverá um aumento significativo na oferta que gere uma redução perceptível nos preços ao consumidor. No entanto, do ponto de vista político, essas medidas servem para demonstrar ação governamental e melhorar a percepção da população quanto às iniciativas para conter a inflação.
Outro ponto que merece destaque é a necessidade de reduzir os custos de produção no Brasil. O país enfrenta desafios estruturais que impactam diretamente o setor agropecuário e, consequentemente, os preços finais dos alimentos. Entre os principais entraves estão a alta carga tributária, especialmente o ICMS, que continua sendo um dos principais custos para o setor agropecuário, mesmo após a reforma tributária. Além disso, o Brasil ainda depende fortemente da importação de fertilizantes, o que encarece os custos para os produtores e, por consequência, para os consumidores.
Medidas que incentivem a produção nacional, como a isenção da alíquota de importação para fertilizantes e insumos agrícolas, poderiam ter um impacto mais efetivo na redução dos preços. Hoje, o governo está isentando impostos sobre produtos importados, mas não reduzindo os custos de produção dos produtos já produzidos internamente. Essa é uma questão que ainda precisa ser abordada de forma mais eficaz se o Brasil quiser combater a inflação dos alimentos de maneira estrutural.
Em conclusão, a redução da alíquota de importação é uma medida válida dentro de um contexto comercial, mas seu impacto real na inflação dos alimentos será pequeno. O Brasil já domina a produção de muitos desses itens, e a importação dificilmente será suficiente para alterar substancialmente o cenário do mercado interno. Para combater a inflação alimentar de forma estrutural, o país precisa enfrentar desafios internos, como a alta carga tributária e a dependência de insumos importados. Enquanto essas questões não forem resolvidas, medidas pontuais, como a redução de alíquotas de importação, terão apenas um efeito marginal sobre os preços, sem trazer um alívio significativo para o bolso do consumidor.