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Jornal Extra - Marcos Furtado (23/03/2025)

Selic: entenda como a alta da taxa básica de juros vai influenciar nos valores de empréstimo e no acesso ao crédito

Com aumento de um ponto percentual, a Selic ficou em 14,25% ao ano. Descubra como a taxa influencia sua vida financeira

Após o Banco Central definir a taxa básica de juros (Selic) em 14,25% ao ano, o custo do crédito no país deve aumentar. Empréstimos, financiamentos e até parcelamentos de compras podem ficar mais caros, impactando tanto consumidores quanto empresas. Mas por que isso acontece? Especialistas explicam como a nova alta de um ponto percentual da Selic — quinto aumento consecutivo desde setembro — influencia os juros e torna o acesso ao crédito.

O governo federal emite títulos da dívida pública, que são como promessas de pagamento no futuro. Os compradores — como bancos e investidores — emprestam dinheiro ao governo para receber o valor de volta com juros. Nesse caso, a Selic é a taxa de juros paga por essa dívida.

Como o governo é considerado o tomador de empréstimo mais seguro da economia, pois tem meios de garantir o pagamento (como impostos e controle sobre a moeda), qualquer banco, empresa ou pessoa que queira tomar crédito terá que pagar uma taxa de juros maior do que a Selic. Afinal, emprestar para uma empresa ou consumidor é mais arriscado do que para o governo.

Se oferecesse um empréstimo com juros menores que a Selic, um banco estaria aceitando ganhar menos do que poderia simplesmente emprestando ao governo. Dessa forma, as instituições financeiras passam a cobrar mais por empréstimos e financiamentos para compensar os riscos. O consultor financeiro e especialista em investimentos Renan Diego explica em que tipos de operações financeiras o consumidor vai sentir mais diferença:

— Esse movimento pode resultar em um aumento na taxa de juros dos empréstimos. As parcelas do cartão de crédito em atraso também serão impactadas pelo aumento dos juros. Quem financia imóveis ou veículos, especialmente em contratos com taxas variáveis, perceberá um aumento nas prestações nos próximos meses.

Já o economista e professor do Ibmec Gilberto Braga esclarece sobre como serão afetados os valores dívidas já existentes.

— Esse aumento não altera contratos antigos que já tinham taxas fixas, mas pode impactar operações com juros variáveis, que não estavam previamente definidos. Isso significa que empréstimos iniciados no passado, mas com taxas que acompanham o mercado, podem ficar mais caros — alerta.


Crédito rotativo, cheque especial e consignado
Além disso, o crédito rotativo — utilizado por quem não paga a fatura do cartão de crédito integralmente ou atrasa o pagamento — fica ainda mais caro. Como essa modalidade é considerada de alto risco para os bancos, as taxas do crédito rotativo já são elevados. Com a alta da Selic, esses juros tendem a aumentar ainda mais. O mesmo ocorre com as taxas do cheque especial.

Por outro lado, o crédito consignado tende a sofrer um impacto menor com a alta da Selic porque suas taxas de juros já são mais baixas em comparação a outras linhas de crédito. Isso acontece porque o consignado tem garantia de pagamento, já que as parcelas são descontadas diretamente da folha de pagamento ou do benefício do INSS. Como o risco de inadimplência é menor, os bancos cobram juros menores nessa modalidade.

— O impacto no consignado pode ser menos drástico, já que as taxas de juros são mais baixas. Ainda haverá um aumento, mas ele será menor do que em outras linhas de crédito — esclarece Renan Diego.


Análise de crédito mais rigorosa
Outro aspecto que pode ser afetado é aprovação de crédito, no qual o banco analisa a capacidade do consumidor de pagar a dívida. Quando os juros aumentam, a análise fica mais rigorosa.

Funciona assim: se um consumidor for tomar um crédito para comprar um produto de R$ 5 mil, por exemplo, com uma taxa de juros mais baixa, a instituição financeira pode exigir uma renda de R$ 3 mil para aprovar a operação. Se a taxa aumenta, o banco pode exigir que os ganhos da pessoa seja de R$ 3.300 para a mesma transação. Esses valores são somente exemplos hipotéticos para ilustrar a explicação.

Segundo o consultor Renan Diego, essa é uma forma das instituições bancárias protegerem sua rentabilidade em um ambiente de juros mais altos.

— Os bancos também podem exigir garantias adicionais e realizar uma análise de crédito mais criteriosa. Dessa forma, empréstimos serão liberados apenas para clientes com uma situação financeira mais estável — afirma.


Medida para diminuir a inflação
Para os consumidores, a alta de Selic influencia a decisão de compra devido aos juros embutidos nas prestações. Isso faz parte de uma estratégia do governo de desestimular o consumo e reduzir a circulação de dinheiro na economia como uma forma de combater a inflação.

No mês de fevereiro, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) — a inflação oficial do país —, registrou alta de 1,31%. Foi a maior elevação para o mês desde 2003, quando o aumento foi de 1,57%. Com o consumo mais baixo devido à alta da Selic, a demanda por produtos e serviços diminui.

— Como a oferta de bens e serviços já está determinada e as empresas continuam produzindo para encontrar clientes, a consequência natural é a redução dos preços, até que o mercado atinja um novo equilíbrio com valores mais baixos — esclarece Gilberto Braga.

No entanto, o aumento da Selic pode não surtir efeito, segundo o economista, por causa do estímulo ao consumo feito pelo governo por meio de medidas que liberam recursos e facilitam o crédito.

— Posso citar duas medidas recentes, como a liberação do FGTS para demitidos (de 2020 para cá) que aderiram ao saque-aniversário, permitindo que as pessoas acessem recursos que estavam bloqueados; e a facilidade de acesso ao crédito consignado no setor privado, com condições mais vantajosas. Essas ações vão contra a política de combate à inflação, que busca reduzir o consumo — opina o economista.