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Tribuna da Imprensa - (05/03/2025)

Alta do café: crescente preço do produto vai além da questão da economia brasileira, diz economista

Gilberto Braga diz que alta do café vai além da economia brasileira: ‘falta café no mundo’, afirma o especialista

Os mercados mundiais têm vivido uma alta do preço do café, que tem subido drasticamente desde o começo do ano passado. No início de janeiro deste ano, o produto alcançou o maior valor nominal em quase 50 anos, desde 1977, sendo negociado a US$3,665 por libra-peso na ICE (referência global para os preços do café arábica).

No entanto, a valorização do café não tem sido benéfica para todos os produtores, que sofrem cada vez mais com o aumento das temperaturas globais, as secas prolongadas e as chuvas excessivas. Os problemas têm ocorrido principalmente em países como Brasil e Vietnã – dois dos maiores produtores de café -, gerando uma escassez de grãos de café no mercado. Tudo isso acarreta em aumento nos custos de produção, dificuldades de contratação de trabalhadores num cenário climático imprevisível. Esses fatores indicam que, mesmo com o aumento nos preços, os ganhos podem ser reduzidos ou até negativos, caso os problemas persistam.

Para falar sobre o tema, a Tribuna da Imprensa entrevistou o economista Gilberto Braga, professor de Finanças do MBA do IBMEC. Confira!

*Tribuna da Imprensa – O preço do café atingiu o maior nível dos últimos 50 anos, e muitas pessoas têm falado que isso ocorre por conta de questões da economia brasileira. No entanto, o desafio das mudanças climáticas tem afetado a colheita em diversos países, o que acarreta na diminuição da produção. O que pode falar sobre isso?*

Gilberto Braga – O que ocorre é uma combinação de diversos fatores, mas o principal são as mudanças climáticas. O café é uma commodity, por isso é apresentado em formato padronizado e negociado em dólar. Como há uma especulação por conta da falta de oferta no mundo em função das questões climáticas, isso afeta a economia interna, porque embora o Brasil tenha sido menos afetado, existe uma expectativa de uma produção bastante regular para o ano de 2025. O fato é que está faltando café no mundo e o seu consumo também aumentou nos últimos anos. Logo, você tem uma demanda crescente, uma oferta menor, principalmente devido à questão climática internacional. Com isso, o mercado local sofre mais porque o exportador, o plantador de café e a cultura de café possuem um mercado externo. Então, parte da oferta interna acaba sendo deslocada para o mercado internacional que está dolarizado com uma cotação internacional. Então, quando o preço do café sobe internacionalmente, ele automaticamente pressiona os preços internos também. Essa é a razão principal.

*Tribuna da Imprensa – Também existe uma dificuldade na contratação de trabalhadores, mesmo com salários mais altos, o que também impacta diretamente a produção de café. O que pode ser feito em relação a isso?*

A questão salarial afeta todas as categorias de trabalhadores. Mão de obra com algum grau de especialização é mais disputada e custa mais caro, então, não é necessariamente uma dificuldade da cultura de café, mas que também afeta os produtores de café. Isso porque a produção do grão exige uma certa sofisticação dentro do próprio agronegócio, ou seja, o café é normalmente comercializado torrado, não é um produto totalmente in natura extraído da natureza com baixo nível de transformação para ser comercializado. Por isso a mão de obra pesa um pouco mais na atividade do café do que nas atividades de origem agrícola. Mas reforço que essa é uma dificuldade de toda a economia brasileira, como de todo mercado de trabalho.

*Tribuna da Imprensa – Os maiores produtores de café do mundo, Honduras, Brasil e Vietnã, estão sendo afetados diariamente com essa nova realidade. O que pode ser feito, de maneira efetiva, para que eles lidem com isso e consigam amenizar a alta dos preços?*

Para fazer com que os preços diminuam, isso depende muito de questões climáticas com relação à sustentabilidade do planeta. A gente vive um momento de impasse, com os Estados Unidos mudando o seu posicionamento numa série de questões. Uma das vertentes é com relação à exploração da natureza sobre protocolos de descarbonização da sua economia. Isso tudo não é animador para a cultura de café, como também não é para as demais culturas, então, é difícil saber, neste momento, o que vai acontecer, à medida em que estamos vivendo uma onda de eventos climáticos cada vez mais severos, o que é um consenso entre os especialistas da área.

*Tribuna da Imprensa – Muitos especialistas afirmam que cooperativas e pequenos agricultores devem seguir ações sustentáveis em suas colheitas para amenizar o que está havendo, pois precisam se preparar para o futuro e não aproveitar essa alta como forma de lucrar. O que pode ser feito?*

A questão da sustentabilidade vai além do que a questão de como produzir ou de como obter resultados com a safra. A necessidade de se pensar de uma maneira equilibrada, bem como o uso dos recursos, envolve desde o manejo da terra até a produção de produtos mais especializados com alto grau de tecnologia. O que a gente precisa é uma mudança de atitude do homem em relação ao mundo, aos modos de produção. Saímos de um processo produtivo depredatório e entramos dentro de um processo de economia circular com reaproveitamento. A gente tem que romper a cadeia do descobre, extrai, produz, usa e descarta. Temos que introduzir o transformar de forma consciente, já pensando no reaproveitamento e na reciclagem dos processos. Se nós não fizermos isso em muito pouco tempo, teremos um mundo mais difícil para se viver, em uma economia que não se sustentará no médio e longo prazos. Então, respondendo diretamente à pergunta, é óbvio que não é para ter lucro em apenas uma safra, mas pensar na sobrevivência não apenas da cultura, mas do próprio planeta daqui para frente.