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O Dia - Waleria de Carvalho (16/02/2025)

Preço do café faz consumidor mudar seus hábitos

Troca de marca e reciclagem são algumas das alternativas

O café é uma bebida tradicional dos cariocas. Seja de manhã, após o almoço ou de tarde, está sempre ali com aroma delicioso, puro ou pingado, acompanhado ou não de um pão francês. Num encontro com amigos, um cafezinho não pode faltar, mas, atualmente, com o preço, as pessoas estão repensando essa tradição ou, pelo menos, diminuindo o hábito. O café é tão poderoso que ganhou até quadro no Globo Esporte, o Cafezinho com Escobar e virou meme nas redes sociais.

Mas o que os aficionados pelo grão tão saboroso estão fazendo para driblar a alta no preço do café? Meio quilo não sai por menos de R$ 32,00. Em alguns mercados da Zona Sul do Rio de Janeiro passava de R$ 40,00. Nas lanchonetes, o cafezinho também variava de preço, entre R$ 3 e R$ 9. Isso sem falar no expresso, que aí vai às alturas.  A reportagem do jornal O DIA esteve nas ruas do Catete, Zona Sul do Rio de Janeiro, e conversou com algumas pessoas para saber o que elas estão fazendo para conseguir tomar o cafezinho de todo santo dia.


Mudança de marca
De férias no Rio, a operadora de caixa, a paulistana Dilcelene Nascimento, achou o aumento do produto ridículo. "Eu fiquei muito braba. Fui no mercado para comprar café e no dia seguinte já havia aumentado. Eu não deixei de tomar café, mas tive que comprar uma marca mais barata. Isso é ridículo. O custo de vida está muito alto no país. Estou num hostel e, de manhã, tomo pelas padarias do bairro. À tarde, comprei café solúvel para não ficar sem o meu cafezinho".


Uso do solúvel
Fiscal de caixa, Jefferson de Araújo espera que o preço do café diminua. "Não é possível que o café aumente de uma hora para outra. Quem gosta fica bem chateado. O jeito é usar o solúvel e diminuir a quantidade de vezes. Tenho a esperança de que o preço irá diminuir porque ninguém está aguentando a alta. Está caro demais", reclama.


Reciclagem
A aposentada Valquiria Arantes não deixou de tomar seu cafezinho por conta da alta dos preços, mas modificou a forma. "Um absurdo esse aumento. De manhã eu faço fresquinho, mas à tarde eu reciclo com o que sobrou. Coloco menos pó e misturo com o mais velho. Também faço chá gelado. Agora café virou produto de rico. Até nos laboratórios, o cafezinho doado não é mais de boa qualidade. Outro dia até falei para uma das atendentes que o gosto não estava tão bom", diz ela, acrescentando que o cafezinho é uma tradição dos brasileiros, principalmente, dos cariocas.


Hábito diário
A parada diária na padaria para um cafezinho ou um café pingado é tradição para a advogada Daniela da Rocha Martins. "Tomo café diariamente, não deixei de tomar, mas o preço está um absurdo. Muita gente não pode pagar. Eu tomo aqui na padaria e em casa também. Advogada não fica sem café de jeito nenhum’’, disse ela, que desconhece os cafés fakes que estão aparecendo no mercado.


Seis pacotinhos
A aposentada Rosa Lima estava fazendo compras num supermercado e inconformada com o preço do café, ainda assim diz que continua comprando seis pacotinhos por mês porque, como a maioria dos brasileiros, já é um hábito. "Eu tomo só de manhã, mas o meu filho bebe café o dia inteiro", afirma dona Rosa, que não sabe se o aumento foi por conta da crise climática. "Mesmo mais caro que não deixo de comprar meu cafezinho. Todo mundo tem o hábito de tomar. Isso é costume dos grandes. Todo mundo gosta de café. É difícil uma pessoa que não goste de café".


De olho nas embalagens
A alta nos preços do produto tão amado pelos brasileiros deu margem para que o consumidor menos atento caia numa cilada: o Café Fake / CaFake, ou seja misturas de café com impureza e que não são saudáveis nem tem aprovação. Quem faz o alerta é a Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC), que esclarece: "A legislação nacional sanitária e de defesa agropecuária proíbe, de forma expressa, com punição de multa e apreensão, a oferta direta ao consumidor de café misturado com resíduos agrícolas, matérias estranhas e impurezas como cascas, palha, folhas, paus ou qualquer parte da planta exceto a semente do café".

Segundo a ABIC, algumas empresas têm tentado enquadrar a mistura intencional de impurezas no café em outras categorias de alimentos, mantendo-se a identidade visual parecida com o café verdadeiro. O denominado pó para preparo de bebida tipo ou sabor café não é café e pode ludibriar o consumidor. A instituição ressalta ainda que a legislação sanitária prevê que a disponibilização de novos alimentos e novos ingredientes no mercado requer autorização prévia da ANVISA, mediante a comprovação da segurança de consumo.


Seminário discute rumos
Para que essa prática acabe, a ABIC promove o Seminário 'Defesa do consumidor e combate à fraude no café: o papel das entidades públicas e privadas'. O evento vista proteger o consumidor diante da possibilidade de aumento de fraudes no contexto da alta do preço do café e terá a presença de representantes da indústria, do varejo e de órgãos de fiscalização. O encontro acontecerá na quarta-feira (19), às 9h, na sede da ABIC, no centro do Rio de Janeiro, com transmissão on-line.

Diretor Executivo da Associação, Celírio Inácio, fala sobre a importância do evento. "O objetivo do seminário é reunir todos os stakeholders do mercado e os órgãos oficiais de defesa do consumidor do Rio de Janeiro para discutir os desafios existentes neste momento de alta do preço da saca de café, no qual o número de empresas fraudulentas tendem a aumentar, com o objetivo de competir de forma desleal através de preços baixos artificiais sobre produtos adulterados e impróprios para o consumo".


Valor não vai diminuir
Doutor em engenharia da produção e ex-secretário da Agricultura do Paraná, o professor universitário Eugenio Stefanelo explica que será difícil o preço do produto cair. "Para este ano, não tem jeito, a cotação do café permanecerá em nível elevado. Claro que poderá aumentar ou reduzir levemente o preço, dependendo do andamento das cotações internacionais e da taxa de câmbio, mas nós não veremos neste ano reduções mais significativas do preço do café.

Stefanelo explica também que o custo da matéria-prima também tem grande impacto no preço final do café para o consumidor. "Não dá pra esquecer que outros custos também se elevaram no ano passado , e neste início de 2025, por exemplo, o custo da mão de obra, da energia elétrica, dos combustíveis e o custo das embalagens são fatores que, obviamente, influenciam no preço final do produto ao consumidor", comenta ele.

O especialista afirma ainda que não houve nenhuma especulação nas cadeias de produção. "O IPCA (Índice de Preço ao Consumidor Amplo) do café moído aumentou 37% no ano passado. Consequentemente esse aumento de preço verificado mostra que, na verdade foram os aumentos do preço da matéria-prima e os demais aumentos dos custos de processamento e de transportes desse café até o consumidor final que provocaram essa situação. De fato o café está com o preço para o consumidor muito elevado e essa situação tende a permanecer praticamente durante este ano. Lamentavelmente essa não é uma boa notícia para os 'tomadores de café'', finaliza Stefanelo.

De acordo com o economista Gilberto Braga, a alta não é só no Brasil. "A cultura de café está sendo afetada pelos eventos climáticos extremos no mundo e o fato concreto é que o oferta global está menor e os preços mais caros no mundo todo, não sendo uma particularidade do Brasil. A expectativa é de que a produção brasileira se recupere em 2025, mas isso não assegura que os preços irão diminuir para o consumidor.


Mania nacional
De acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC) , foram consumidas 21,916 milhões de sacas em 2024. Os números apontam que o consumo da bebida no Brasil entre novembro de 2023 e outubro de 2024 registrou um aumento de 1,11% em relação ao período anterior, considerando dados de novembro de 2022 a outubro de 2023. Tal volume representa 40,4% da safra de 2024, que foi de 54,21 milhões de sacas, segundo a Conab – Companhia Nacional de Abastecimento. O Brasil segue como o maior consumidor dos cafés nacionais.