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O Globo - Luciana Casemiro (13/02/2025)

Comércio caminhou para estabilização no fim de 2024, mas ainda em patamar alto

O crescimento robusto de 4,7% no ano, impulsionado pela renda, deve desacelerar em 2025

O comércio estabilizou no final de 2024 em nível alto, porém, com sinais de perda de força econômica. O crescimento robusto de 4,7% no ano, impulsionado pela renda, deve desacelerar em 2025. A inflação afetou os preços e a renda real, levando a uma preocupante queda no setor atacado de alimentos e bebidas. A antecipação de compras na Black Friday e incertezas econômicas devem manter o consumidor retraído.

- Dezembro veio com o segundo resultado negativo, mas muito próximo de zero. Até o IBGE tem tratado com uma certa estabilidade. Mas não consigo ainda acreditar que seja um esfriamento da economia me parece muito mais uma acomodação de consumo, depois de resultados muito favoráveis ao longo de 2024 que trouxeram o setor próximo do máximo histórico. O varejo tem tido um crescimento bem significativo há alguns anos, mas o crescimento de 2024 foi muito mais robusto e bastante disseminado. E a principal explicação para isso, é a renda. Para 2025, a gente não espera que mantenha esse mesmo ritmo, deve haver uma desaceleração da atividade econômica. Esse final de ano já mostrou um cenário macroeconômico bem mais desafiador, então a expectativa é que a gente volte a ter números mais, mais brandos, né? Num ritmo um pouco menor do que se observou agora em 24 - diz Rodolpho Tobler, pesquisador do FGV Ibre.

Felipe Tavares, economista-chefe da CNC, chama atenção para o fato de que o setor teve um crescimento de 7,5% no índice de receitas e uma alta de 4.5% no volume, o que ponta, diz ele, a inflação de preços:

- Isso reforça o efeito prático da inflação, porque a atividade em volume cresceu menos significativamente do que as receitas, ou seja, teve uma remarcação de preços. É significativo ali ao longo do ano, então isso mostra que em 2025, muito provavelmente, a gente tem uma desaceleração por uma diminuição da renda real das famílias.

Tavares reforça que 2024 foi um bom ano para o setor, mas pondera que a queda expressiva do setor atacado de alimentos e bebidas, um recuo de 7,1% no ano, diz o economista, acende uma luz amarela: </p>

- Isto porque mostra efeitos diretos do aumento da inflação ao longo do ano, que restringiu a renda real das famílias. Embora, às vezes, de considere que o atacado não é um tipo de atividade muito ligada à pessoa física, nos últimos anos houve uma mudança de perfil de consumo das famílias brasileiras buscando cada vez mais fazer sua compra do mês em atacarejos, supermercados atacadistas, na busca de melhores preços. Então, a queda expressiva ali de mais de 7% no ano, é dá uma certa preocupação, porque a gente vê esse efeitos diretos do aumento da inflação na atividade econômica . Além disso, vale lembrar que o fim de ano são de meses de euforia para varejo de forma ampla, Natal, férias, quando você tem uma queda da atividade do varejo no último mês do ano, isso preocupa com o sinal um pouco mais forte de desaceleração para o próximo ano.

Na visão de Gilberto Baga, professor do Ibmec, houve uma antecipação das compras de fim de ano na Black Friday. Braga avalia, no entanto, que o consumidor deve continuar retraído nesse inicio de ano. Segundo o professor, o comportamento de consumo é muito sensível ao contexto econômico global. 

- O comércio é muito suscetível a estímulos e as notícias. Então, quando a gente escuta que a inflação de alimentos está alta, que não há expectativa de queda no curto prazo, sobre questões do câmbio e o risco da política comercial externa afetar a economia brasileira, existe uma natural retração. O consumidor tende a ficar mais desconfiado e diminui o volume de compras para aquilo que é o essencial. A questão dos juros é mais um elemento a desestimular, pois, que boa parte do comércio, sobretudo de itens de maior valor, como eletrodomésticos, eletroeletrônicos, bens duráveis, são comprados a prazo. Isso desestimula que ele faça decisão de compra.