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Enfoco - Ezequiel Manhães (26/04/2026)

Fim da era dos shoppings? Pesquisa revela queda de movimento e nas vendas

Reflexos das mudanças também em centros comerciais da Região Metropolitana do Rio

A transformação no comportamento do consumidor, impulsionada pelo crescimento das compras online e pela mudança de hábitos após a pandemia da Covid-19, já provoca efeitos visíveis no setor de shoppings centers em todo o país, e já acende um sinal de atenção na Região Metropolitana do Rio, com reflexos em Niterói, São Gonçalo e cidades vizinhas.

Dados do setor apontam uma queda de 6,2% nas visitas mensais entre 2019 e 2025, segundo a Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce), em uma pesquisa a nível nacional. Em 2024, a média foi de 471 milhões de visitas por mês, contra 476 milhões no mesmo período do ano anterior.

Além disso, mesmo com crescimento nominal do faturamento no período, as vendas reais caíram cerca de 25% quando descontada a inflação, indicando perda de poder de consumo no varejo físico. Outro dado relevante é o avanço do e-commerce, o comércio digital.

O custo de ir ao um shopping center é caro, porque começa no estacionamento pago ou no transporte e pode envolver algum consumo de refeição, além da demanda por um produto ou serviço propriamente dito. Assim, o e-commerce oferece a oportunidade da mesma demanda, facilidade de busca e comparação de qualidade e preços, com um custo geralmente mais barato e economia de tempo“, — Gilberto Braga, economista e professor do IBMEC.

Diante do cenário global, administradores e lojistas locais devem acompanhar a redução do fluxo de clientes e a maior dificuldade de retenção de público.

“Há a questão estrutural, com a sociedade como um todo migrando para o digital, e também um problema conjuntural, com juros altos e crédito caro afetando o consumo”, argumenta o economista Roberto Luis Troster, da Universidade de São Paulo (USP).

Troster diz ao ENFOCO que a queda no fluxo nos shoppings é uma combinação de fatores, mas faz a contrapartida.

“Há muitas coisas que você não consegue fazer no digital. Você não consegue, por exemplo, experimentar roupa ou ter certas experiências. Então, o shopping ainda tem um espaço estrutural garantido”, lembra.


Altos e baixos

Um estudo divulgado em janeiro deste ano pelo Instituto Fecomércio de Pesquisas e Análises aponta que o comércio no Rio de Janeiro teve um desempenho melhor que a média do país: subiu 1,1% no mês e 3,5% em relação ao ano passado. Alguns setores cresceram bastante, principalmente informática e eletrodomésticos, mas outros tiveram queda, como roupas e itens pessoais.

Empreendimentos da região têm buscado alternativas para manter a atratividade, apostando em eventos, gastronomia, experiências e expansão de serviços, em meio à disputa direta com o consumo digital.

“Os shoppings centers não podem mais se posicionar como apenas um centro de compras passivo, devendo oferecer algo mais, para que a motivação vá além do simples consumo e se revele uma experiência memorável para o frequentador, atendendo de forma múltipla as suas necessidades”, argumenta o economista Gilberto Braga.

Na visão do especialista, a queda de fluxo em shoppings centers também pode ser considerada uma tendência estrutural.

Trata-se de um movimento inexorável, de natureza cultural e econômico, decorrente do avanço do meios tecnológicos, da maior usabilidade da internet e aplicativos pela população […]” - Gilberto Braga, economista.


Impacto pós-pandemia

Ainda de acordo com o especialista, o movimento ganhou força após a pandemia do Coronavírus e o período de isolamento social: “Houve uma aceleração forçada de compras pelo meio digital e o crescimento de lojas e serviços com atendimento virtual, com preços e qualidade competitivos, atraindo uma parcela de consumidores dos shoppings centers”.


O que dizem as administradoras dos shoppings?

Procuradas para comentar os números apresentados pela Abrasce, a ALLOS, plataforma gestora do Plaza Shopping Niterói, informou que não divulga dados específicos de fluxo por ativo. Mas que o centro comercial segue com um mix de lojas consolidado e em constante qualificação, sem registro de mudanças estruturais relevantes no período.

Ainda segundo a companhia, ao longo de 2025, foram firmados 33 novos contratos comerciais, reforçando a atratividade do shopping. A ALLOS reforça ainda que o shopping segue com crescimento consistente de vendas, sem evidência de migração relevante que comprometa o desempenho do varejo físico.

Diante do forte cenário de e-commerce, a gestora explica que a estratégia tem sido integrar físico e digital de forma complementar, ampliando a jornada do consumidor. ‘Iniciativas como soluções de conveniência (incluindo retirada de produtos), uso de canais digitais pelos lojistas e ações de relacionamento contribuem para fortalecer a experiência e ampliar oportunidades de venda’.

Entre as iniciativas, a gestora do Plaza Shopping aposta em novos lounges, paisagismo, experiência olfativa e retrofit de áreas comuns —, além de um calendário de eventos ao longo do ano.

‘O Programa de Benefícios, já consolidado, conta com mais de 60 mil membros ativos e permite uma gestão mais eficiente do relacionamento, com 33% das vendas identificadas, contribuindo para ações mais personalizadas e maior engajamento’, explica a ALLOS em nota.

Por fim, a ALLOS justifica que companhia acompanha de forma contínua o ambiente macroeconômico e o comportamento do consumidor, ajustando suas estratégias para manter a atratividade do shopping, a qualidade do mix e a performance operacional.

As demais administradoras de shoppings de Niterói e São Gonçalo ainda não se manifestaram.