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InvesTalk - Gustavo Boldrini (09/03/2026)

Disparada do petróleo pode ameaçar ritmo de cortes da Selic, dizem economistas

A disparada da commodity tem gerado preocupações ao redor do mundo

Após dez dias de guerra no Oriente Médio, o petróleo saiu de US$ 70 para mais de US$ 100 nesta segunda-feira, chegando a tocar a marca de US$ 119 por barril ao longo da madrugada.  

A disparada da commodity, que supera os 42% no período, tem gerado preocupações ao redor do mundo. Isso porque os efeitos nos preços podem trazer consequências graves para as economias.  

No Brasil, não é diferente. Em um momento em que a inflação medida pelo IPCA vinha se estabilizando dentro do teto de tolerância da meta estipulada pelo Banco Central (BC) - abaixo de 4,5% ao ano - e abrindo espaço para o início de um processo de cortes na taxa básica de juros (Selic), será que o possível choque causado pela guerra no Oriente Médio pode colocar em dúvida os próximos passos do Comitê de Política Monetária (Copom)?  


Cautela nos cortes

Economistas ouvidos pelo InvesTalk/Broadcast avaliam que o primeiro corte da Selic já projetado pelo Copom para a reunião de 17 e 18 de março não deve estar sob ameaça. Mas a magnitude desta redução pode variar, conforme os diretores do BC ponderam os efeitos da guerra sobre as projeções de inflação.  

"O que se espera é que a reunião do Copom de março confirme o já anunciado início do ciclo de baixa da taxa básica. A dúvida é agora se teremos um corte de 0,25 ou 0,50 ponto porcentual. O cenário de incerteza tem o potencial de reduzir a intensidade do corte e o seu tamanho ao longo de 2026", avalia Gilberto Braga, professor de Economia do Ibmec-RJ.  

A curva de juros brasileira tem incorporado esse aumento do risco ao longo dos últimos pregões, em especial na parte dos prazos mais longos. Isso é um indicativo de que a cautela pode ser predominante para as decisões do Copom ao longo dos próximos meses, na opinião do economista André Perfeito, mestre em Economia Política pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).  

"Em relação aos juros, de fato você tem a perspectiva de que aumenta a incerteza, e aí aumenta o risco, aumenta o prêmio e aumentam as taxas. Isso não deve alterar muito a trajetória de curto prazo da Selic, mas a parte mais longa da curva de juros vai tentar incorporar esses riscos no cenário global, e isso é importante", pondera.  

Já o economista Bruno Imaizumi, da consultoria 4intelligence, destaca que o BC tem colocado ênfase na "dependência de dados" em seus comunicados e atas. Ou seja: a autarquia estará com vigilância permanente em relação aos impactos do conflito no Oriente Médio.  

"Apesar das expectativas de cortes, o Copom sempre sinaliza a forte ênfase em dependência de dados e se coloca cauteloso num cenário mais à frente. O sentimento de incerteza vai se elevar no próximo comunicado e na ata, e a evolução da curva básica de juros até o final deste ano também será definida pelos tamanho e duração dos impactos do conflito", avalia.  


Como - e quando - a guerra vai impactar o IPCA?

A grande questão do momento é como - e quando - esse novo cenário global começará a mexer com o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, o IPCA, indicador oficial de inflação do Brasil.  

A princípio, o tempo de duração do conflito pode determinar esse impacto, na opinião de Paulo Gala, doutor em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP).  

"A pergunta fundamental aqui é em quanto tempo isso pode ser resolvido, se é só um repique de preços de uma ou duas semanas e o preço volta, o que seria menos grave. Mas se o conflito demorar para ser resolvido, como o da Ucrânia, eventualmente a Petrobras vai ter que repassar a alta do petróleo para os preços dos derivados, e isso tem um efeito inflacionário", explica.  

O economista menciona ainda a repercussão dessa incerteza no câmbio, uma vez que os rendimentos dos Treasuries, títulos do Tesouro dos EUA, estão em trajetória consistente de alta nos últimos pregões, o que tende a valorizar o dólar e desvalorizar o real. Cálculos do BC apontam que uma queda de 10% do real ante a moeda americana pode elevar o IPCA em 1,1 ponto porcentual.  

Por outro lado, esse impacto, na avaliação do economista André Perfeito, pode ser amenizado pelo fato de o Brasil ter superávit no comércio global de petróleo - ou seja, exporta mais do que importa.  

"Isso já vai gerar um resultado comercial bastante positivo que pode apreciar o real, então não é tão automática essa relação [entre petróleo e inflação]. Logo, eu sugiro cautela com a leitura de que petróleo para cima é necessariamente ruim", afirma.  

O professor Gilberto Braga, do Ibmec-RJ, lembra que a CEO da Petrobras, Magda Chambriard, já falou que terá cautela em repassar aumentos de preços no mercado internacional para os valores praticados no País.  

"Sabe-se que há uma grande defasagem reprimida nos preços internos dos derivados de petróleo, mas seus efeitos serão sentidos quando houver o realinhamento dos valores internos", aponta.  


Como a alta do petróleo mexe com os juros dos EUA?

Nos EUA, a alta do petróleo já vem causando aumento nos preços da gasolina, e a alta dos Treasuries indica que os possíveis cortes de juros pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano) podem ficar ainda mais distantes.  

Os choques causados pela guerra devem elevar inflação via petróleo e seus derivados, e os efeitos indiretos desses aumentos de combustíveis, provavelmente, serão vistos em alimentos. "Sendo assim, o Fed, possivelmente, deve adotar postura de espera. Se conflito perdurar, veremos menos cortes do que o mercado e os próprios diretores sinalizavam", projeta Bruno Imaizumi, da 4Intelligence.  

Para Gilberto Braga, do Ibmec-RJ, o cenário de pressão sobre o títulos públicos nos EUA decorre não apenas da guerra, mas também pelas incertezas em torno da política tarifária.  

"Com [o presidente americano, Donald] Trump no poder, imprevisibilidade é a tônica, sendo difícil fazer projeções sobre juros e sobre as medidas econômicas que podem sair da cartola de uma hora para outra", avalia.