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O Dia - Martha Imenes (22/08/2020)

De olho em 2022, Bolsonaro diz que vai prorrogar o auxílio emergencial

Seiscentão parece estar com dias contados. Para pagar outro valor é preciso aval do Congresso. E agora?

O auxílio emergencial deve ser prorrogado até dezembro, mas não será mais o seiscentão, isso é certo. O valor que ainda não está definido: o presidente Jair Bolsonaro diz que R$ 600 não será possível porque vai onerar muito o caixa do governo. E o duzentão (R$ 200), que chegou a ser cogitado, não teve uma boa repercussão por ser um valor muito baixo. Ontem, em visita ao Rio Grande do Norte, Bolsonaro "acenou pra galera" com a renovação do benefício e ressaltou que ele não será eterno.

"O auxílio emergencial foi bem vindo, mas ele custa R$ 50 bilhões por ano. Infelizmente, ele não pode ser definitivo, mas vamos continuar com ele, mesmo que com valores diferentes, até que a economia realmente possa pegar no nosso país", disse Bolsonaro no evento. "Vai até dezembro, só não sei qual vai ser o valor", acrescentou. É importante ressaltar que para alterar o valor de R$ 600, é preciso passar pelo Congresso.

Especialistas avaliam que o benefício deveria ser de R$ 600."Tem de prorrogar pois as pessoas necessitadas precisam muito do auxílio nesse momento muito difícil", avalia Raul Velloso, economista e ex-secretário de Assuntos Econômicos do Ministério do Planejamento. Especialista em macroeconomia, Velloso vai além: "Eu manteria o mesmo valor (R$ 600). E só pensaria em parar quando a pandemia estivesse controlada por alguma vacina". "Para mãe solteira dá para manter os R$ 1,2 mil. E dá para fazer mais tempo no ano que vem. É só ir acompanhando, avaliando e vendo se não dá para financiar sem problema", acrescenta.

O também economista Gilberto Braga, professor do Ibmec e da Fundação D. Cabral, diz que a prorrogação é uma ajuda direta na veia da população, porque alcança quem perdeu renda ou ficou desempregado com a covid-19, mas também beneficiou um conjunto de pessoas que estava procurando emprego e não entrava nas estatísticas. "Trata-se de um grande movimento de inclusão social na sociedade de consumo no valor de R$ 3 mil por pessoa".

"Não se pode acabar de forma abrupta com o benefício. Pois seria devolver para pobreza e desalento uma parcela considerável da população, num momento em que a economia ainda está retomando o seu ritmo e a geração de empregos ainda vai demorar para acontecer", adverte Gilberto Braga.


Fator político teria pesado na decisão

Um aspecto da prorrogação do auxílio emergencial foi destacado por Paulo Baía, sociólogo e cientista político da UFRJ: o político. Segundo o professor, Bolsonaro não só mira a reeleição em 2022 com o auxílio como tem tomado outras medidas que não são aprovadas pela equipe econômica, entre elas criação do programa Renda mínima, investimentos em obras públicas, crédito diferenciado a micro, pequeno e médio negócio e proteção de empregos."Paulo Guedes vai para o espaço", sentencia.

"Temos no mês de agosto três pesquisas diferentes, com metodologias distintas e resultados que não podem ser comparados, mas todos indicam a tendência de aprovação de Jair Bolsonaro e seu governo", indica.

Gilberto Braga tem avaliação similar: "O efeito da ajuda também pode ser medido pelo aumento da popularidade do presidente nas pesquisas. Sendo um ano de eleição, era natural que o benefício fosse estendido até pelo menos o mês do pleito (municipal), o que poderá influir na formação de uma base política de apoio à reeleição de Bolsonaro em 2022."

De acordo com Braga, a discussão técnica dentro do governo deve ser sobre como manter o auxílio agora que se percebeu o seu efeito político muito favorável sem onerar o equilíbrio fiscal, defendido pelo ministro da Economia. "A solução deve passar pela reformulação do Bolsa Família, que vai virar Renda Brasil e que deverá absorver vários aspectos do alcance da ajuda emergencial", finalizou.